sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Um simples olhar

Paro no semáforo de uma movimentada avenida. Olho para o lado e vejo um menino sujo da cabeça aos pés, ignoro-o e olho para o outro lado e vejo um restaurante fast food com gente entrando e saindo a todo instante.
Acelero e passo por um parque. É um complexo de lazer bonito, arborizado, mas algo está errado. Algumas crianças olham os carros, atônitas por alguns poucos centavos. Continuo o meu percurso e avisto ao lado do parque um bairro belíssimo, com casas lindas. Fico com a sensação de que aquele parque fora construído para ser quintal daquelas luxuosas casas. Tudo bem, sem problemas, aliás, é apenas uma observação.
Continuo o meu percurso e como estou vagaroso, um ônibus não pára de buzinar atrás de mim. Olho pelo retrovisor e avisto um senhor de meia idade dirigindo o coletivo. Permito que ele me passe e logo adiante vejo que não tem cobrador. Penso: esse senhor dirige e ainda tem que cobrar? Bom, está certo, a empresa quis reduzir custos. Pensamento moderno, reduzir custos.
Bom, o motorista/cobrador acelerou, depositou muita fumaça no meu carro porque o motor do ônibus estava desregulado e dei continuidade ao meu passeio. Paro novamente no semáforo e um menino com dois bastões passa a fazer malabarismo. Ele joga duas peças para o alto e uma terceira peça é manuseada com uma das mãos. O menino é muito veloz, muito hábil. Ele termina a apresentação “smart” e se aproxima do meu carro; com a mão direita estendida para o céu pede uns trocados.
Acelero e avisto um homem puxando um carrinho com material reciclável. É um carrinho grande, não é bonito, é robusto e tem roda de carro. O carrinho está cheio de material e o homem com cara de cansado, barba por fazer, puxa como se fosse um burro de carga. Continuo o meu caminho e paro novamente no semáforo. Aliás, como tem semáforos nesta cidade. Mas tudo bem, é domingo e não vou estragar o meu dia. Logo à minha frente vejo um templo; ele é bonito, luxuoso e no estacionamento apenas um carro parado, modelo importado. É um carro que vale algumas centenas de milhares de reais. Ao lado da igreja uma faixa escrita: Jesus Cristo te espera! Penso novamente, nossa, mas Jesus não era um pobre Galileu? O que ele tem a ver com tudo isso? Bom, sei lá, talvez eu não tenha lido direito, acho que Jesus era um homem rico de Roma, amigo somente dos afortunados, e morreu de gripe. Quem sabe o maior engano da história ou talvez eu seja o ápice da falta de informação.
Ligo o rádio, e com voz calma uma jornalista noticia a morte de um importante político brasileiro. Ela afirma que o homem teve muita relevância no cenário político nacional e que com a morte dele, poderia haver um forte abalo em seu partido por conta da falta de lideranças substitutas. Nossa que coisa, como pode um homem concentrar tanto poder consigo? Aliás, para que serve o poder? O poder é um legitimador do poder fazer? Será que com poder uma pessoa pode tudo?

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Igreja x modernidade
Em maio de 2007, recebemos no Brasil o Papa Bento XVI, que permaneceu neste país entre 09/05/2007 a 13/05/2007. Ele veio em nome da CELAM -Conferência Episcopal Latino Americana, onde foram apresentadas diretrizes para a caminhada da igreja conforme orientação do papado. E é sobre isso que cabem algumas observações.

Valorizar as diferentes expressões eclesiais da fé é urgente, porém pouco aceito pela Igreja de Roma. Porque não aceitar as diferentes estruturas culturais dos países? Brasil não é a Europa e tampouco respeitam os grandes teológos desta região. Ao meu ver, os nossos teólogos estão anos luz a frente dessa igreja condenatória de Roma, que não permite reflexões mais ousadas. Quer saber? A resposta é: descentralizar = perda de poder. Cristo tinha realmente preocupação em "ter poder"?

A igreja católica não está em comunhão com a modernidade. Ver muitas homilias e discursos hoje, é um convite para nos ofender moral e intectualmente, por conta de verborragias antiqüadas e sem novidade... A cada dia nossa igreja perde oportunidades reais de "colaborar" com o seu povo, o povo de cristo, pois enrijece as estruturas, hierarquiza, dificulta o discurso, querendo inclusive voltá-lo ao latim. Ah meu Deus, acho que há uma certa arrogância aí muito séria, hostilidade à compreensão, hostilidade à modenidade, hostilidade à mulher.Falando em mulher, começando pela minha casa, eu vejo o quanto o sexo feminino pode agregar à compreensão, à proximidade, à educação, ao amadurecimento. Quantas mulheres que poderiam de fato liderar comunidades cristãs, mas ficam sucumbidas a atividades "inferiores", colaborando sob regras rígidas e com suas atitudes mutiladas, comprometendo seu desejo de servir, aniquilando vocações..

Nossa igreja falha muito com a juventude também, o carisma católico está afetado por uma falta de criatividade. Quando atrai os jovens, os alieniza, colocam cabrestos nas idéias e ceifam a criação. Oh meu Deus, como pode ser assim? A juventude na clandestinidade aos preceitos católicos está aí, fazendo sexo, muito sexo "sem camisinha", bebendo, bebendo muito, porque a igreja ingenuamente deixa de discutir olhando nos olhos dessa juventude transviada às necessidades do "ser feliz", do "ter saúde" e permanecer saudável.A igreja também perde a oportunidade de analisar questões como a homossexualidade com seriedade, dois meses atrás, num canal católico da TV, pude ver um padre contando a história de um gay que se converteu em heterossexual e agora é feliz. Arrasou o discurso quando disse que assim como homossexualismo, "ele vê" curas até de câncer por força da fé! Como é possível colocar no mesmo "bojo" saúde e homossexualidade?Cabe lembrar que a OMS já retirou desde 1993 esta dita opção sexual, do CID. Aliás, por falar em opção sexual, há dois discursos sobre a homossexualidade. Um é que na puberdade, por um desvio psicológico a pessoa passa a se interessar por pessoas do mesmo sexo, e há outra corrente que defende que a homossexualidade está mais vinculada de fato, a questões genéticas, o que eu acredito também, pois conheço gays que levam uma vida muito dura porque todos têm um olhar diferente para ele. E os homofóbicos? A igreja com sua falta de aprofundamento no tema, reforça a homofobia. E reforçar um câncer social que é o preconceito, é pouco saudável. É pouco cristão.

Por último cabe também refletirmos pela falta de diálogo inter-religioso que a nossa igreja deva se amadurecer ainda mais, pois neste tipo de diálogo mora o caminho aberto para a paz! E ontem, o Papa definiu a Igreja católica como a única igreja de Cristo. Falar assim, é tirar a pluralidade do amor de Deus no mundo!

Com fé, um dia, ser católico estará próximo de ser cristão. Só lamento não poder ver esse dia!